Casagrande e Max Mosley
Antes de mais nada, quero deixar claro logo na primeira linha que Juca Kfouri é uma das figuras que mais respeito na minha profissão. Ele é quase um professor virtual para mim. Se o Juca fala, eu paro para ouvir. Mas isso não quer dizer que assine embaixo das opiniões dele. No caso específico deste post, estamos em lados opostos.
Na semana passada, Juca criticou em seu blog e na CBN o jornalismo feito pela revista Placar na matéria sobre Casagrande. Discussões como essa servem para todo mundo refletir e melhorar o exercício da nossa profissão. Na opinião do Juca, a revista errou em noticiar a luta do Casão contra a dependência química, doença (não há outra maneira de se referir a isso) que literalmente tirou do ar o comentarista da Globo. Juca diz que todo mundo no nosso meio sabia do caso (eu não sabia), mas que isso não era divulgado por não haver “interesse público”. Placar, portanto, teria entrado de forma inadequada na vida pessoal de Walter Casagrande.
Falemos do que o Juca chama de “interesse público”.
Na segunda-feira, como faço todos os dias, estava ouvindo o CBN Esporte Clube, programa que o Juca apresenta. O jornalista, assim como toda a imprensa brasileira, comentou com alarde a informação divulgada por um tablóide inglês, segundo a qual Max Mosley, o chefão da Fórmula-1, teria sido flagrado por gravações de DVD em uma orgia com tema nazista. “Ele aparece com chicote na mão, com as prostituas pedindo para bater no traseiro delas”, disse na CBN. “Diz que ele tomava chá enquanto as pessoas tomavam vinho. Chá de coca, talvez”, brincou no ar. E eu ri junto com ele, evidentemente! A diferença é que o Juca condena (em ótimo debate para a nossa profissão, reitero) a reportagem sobre o Casagrande.
A reportagem da Placar foi feita em seis meses de apuração, ouvindo e gravando médicos, família e amigos do Casagrande, para reconstruir com a máxima fidelidade e cuidado possível uma história dramática. Max Mosley aparece em uma gravação de DVD, que foi obtida sabe-se lá como pelo tablóide. Na Inglaterra, é tradição deste tipo de publicação pagar por materiais como este vídeo. A editora Abril, que publica Placar, tem como norma não pagar para obter material jornalístico.
Manual
Fico pensando em como colocar isso no papel, para algum manual de jornalismo ou mesmo para uma aula em uma faculdade: “Falar de orgia nazista do chefão da F-1 divulgada em tablóide inglês pode. Apurar matéria sobre a dependência química de um ídolo do futebol brasileiro — drama que tirou Walter Casagrande da casa das pessoas todos os domingos — não pode.” Como defender que no caso de Max Mosley há interesse público e no de Casagrande não há? Não me venham com a história de que é motivação política. Mosley não pregou o nazismo. Estava (supostamente) fazendo sexo, entre quatro paredes.
Quando me perguntam sobre ética jornalística, tenho resposta padrão. Eu não chego à redação e digo: “Agora vou vestir a minha ética de jornalista para trabalhar.” Eu não vou embora dizendo: “Agora vou vestir a minha ética de pessoa comum”. No meu trabalho, não faço (ou tento não fazer) nada que agrida meus princípios.
Claro que é difícil para a Placar publicar uma matéria que expõe de forma pública a doença de um sujeito tão bacana e que admiramos como Casagrande. Por que publicamos, então? Porque a gente faz Placar para os leitores. Entendemos que milhares de pessoas perguntavam onde estava Casagrande, sem nenhuma resposta. Casagrande simplesmente sumiu da casa dos brasileiros, a qual “freqüentava” duas vezes por semana. Nossos leitores esperavam que Placar apurasse e respondesse isso, com a maior responsabilidade possível. Uma coisa é você “saber da história”. A outra é apurar, reconstituir os fatos, montar o quebra-cabeça, reunir provas para sustentar o que vai ser escrito.
O drama de Walter Casagrande, ídolo do Corinthians, jogador da Copa de 1986, comentarista titular da maior emissora deste país, personagem que freqüentou 18 capas da Placar, há anos tem influência direta em sua carreira, uma carreira que se tornou pública e de interesse público.
Maradona, por exemplo, foi flagrado. Nunca foi dele a iniciativa de contar ao mundo que era um dependente. Mas por que podemos falar das internações do Maradona e não se pode abordar Casagrande?
Acontece que é muito mais difícil falar de quem está perto da gente. Eu acho que não conseguiria escrever uma matéria dessas sobre um amigo meu. Max Mosley e Maradona não são nossos amigos, estão longe de nós e no caso do primeiro a gente ainda acha que o homem é um safado. Fica mais fácil falar deles…
Comentário do Doni : Bom texto , gostaria de saber do sr Juca Kfouri se foi ético e profissional divulgar os problemas do dr Joaquim Grava . Será que essa mesma critica que ele fez a revista ele faria se fosse reportagem sobre algum desafeto dele com o mesmo problema ?
Parabéns Risek , colocou o Juca no seu devido lugar e com muita classe , mas cuidado , você pode passar a ser um desafeto do Juca .
1 resposta Até agora ↓
Léo Londrina // 03/04/2008 às 13:48
Doni, entenda uma coisa: O Juca não tem desafetos, só o Milton Neves e a CBF.
Quem tem tomado parte por ele nesses casos é o tal blogueiro que pensa ser jornalista.